Rodrigo Santiago

Apocalypto e o fim da civilização maia

In Históricos on 9, junho, 2008 at 16:20

Mel Gibson mostra novamente como consegue o que quer em Hollywood. Depois de filmar “A paixão de Cristo” em aramaico, língua praticamente morta, ele filma “Apocalypto” utilizando o idioma falado pelos povos maias hoje em dia. O contexto histórico, aparentemente, não é o elemento principal do filme, pois a história principal é mais ou menos universal, que poderia se passar em qualquer época e em qualquer local, fazendo-se as adaptações necessárias.

No entanto, a utilização de tal contexto é o que torna o filme interessante, pois ao narrar esta história universal, narra, também, o final da civilização maia; as guerras frequentes entre tribos e cidades estado; o desespero dos líderes para colheitas prósperas, através da cena dos sacrifícios seriais e a pilha de corpos, sugerindo que os sacrifícios eram numerosos; a edificação de mais construções, utilizando recursos que poderiam ser gastos em algo mais produtivo à civilização. Enfim, narra os últimos suspiros de uma civilização. A chegada das caravelas ao final do filme apenas conclui este ciclo, pois, com a conquista espanhola, a civilização maia, que já estava sob domínio asteca no século XVI, recebe seu ultimato.

A utilização da frase de autoria do historiador Will Durant no início do filme (“Uma grande civilização não pode ser conquistada por fora, antes de se destruir por dentro”) serve para ilustrar o parágrafo anterior, de que a civilização maia, antes de ser conquistada pelos espanhóis, já estava em declínio devido a estes fatores internos. É importante ressaltar que esta civilização entrou em decadência desde o final do século IX, quando ficou sob influência tolteca, e posteriormente sob influência asteca.

Pintura de um sacrificio asteca

Pintura de um sacrifício asteca

O filme recebeu críticas por mostrar uma civilização já decadente no século IX ainda “viva” no século XVI. Porém, não foi mero descuido, mas proposital. Percebo isso na cena do sacrifício, pois, a meu ver, a cena do sacrifício segue à risca as descrições de sacrifício praticada pelos astecas. E no século XVI, como já visto, a civilização maia estava sob influência asteca.

Outra crítica recebida pelo filme foi de mostrar os maias como um povo bárbaro e sanguinolento. A esta altura a patrulha de plantão esquece de mencionar o início do filme, quando a comunidade vivia em harmonia consigo e com a natureza; de que o filme segue o ponto de vista de um indivíduo capturado em uma batalha, logo, as cenas mostradas são relacionadas a isto; e também esquece de que o filme sugere que o eclipse já era conhecido do alto escalão, que trocava olhares de complicidade, enquanto a população foi privada desse conhecimento. A civilização maia é conhecida por ter tido um avançado conhecimento astronômico, mas é lógico que este conhecimento ficava retido na elite. A crítica, a meu entender, é baseada apenas no fato do diretor ser um conservador declarado. Caso fosse um filme dirigido por um diretor reconhecidamente progressista, ou, ainda, por um latino, estas críticas ou não existiriam ou seriam relativizadas. Ou queriam que o filme mostrasse os maias em traje de gala bebendo o chá das cinco?

É interessante observar como a escolha do idioma nos faz mergulhar muito mais facilmente naquele mundo, junto com os outros elementos — ambientação, figurino, etc — e, ao mesmo tempo, distancia-nos historicamente dele, como se tivesse sido filmado na época.

O mais notável Maia

O mais notável Maia: O grão mestre varonil

Portanto, o que inicialmente parecia ser segundo plano — o contexto histórico — é trazido para o primeiro plano, e o conflito do personagem principal fica apenas como uma desculpa para o diretor poder tratar desde contexto histórico, mas sob o ponto de vista do personagem. É um bom filme para estudantes de cinema e crítica entenderem que ao analisar um filme você não pode se ater apenas às técnicas de cinema, mas precisa se preocupar em ver, além dos subtextos, o contexto em que o filme foi feito.

Historiadores e professor universitários também podem utilizar o filme para, além de fazer uma discussão sobre as civilizações americanas e a conquista espanhola, discutir como utilizar o cinema na sala de aula, discutindo os acertos e erros do diretor acerca do contexto histórico.

Os anacronismos presentes no filme talvez sejam mais questões de Antropologia que de História, pois achei a reconstituição histórica bem verossímil, como as pinturas dos deuses ou as cabeças empaladas. No caso dos anacronismos, seriam mais questões como o de levar conceitos de comportamento da sociedade atual para a sociedade da época.

  1. Sem dúvida que se o filme teria atraído menos críticas caso tivesse sido dirigido por um diretor desconhecido. Mas a questão é justamente essa: o filme em si não é tão importante quanto aquilo que Gibson quer mostrar por meio dele.

  2. Não concordo que ele teria tanto interesse assim em mostrar os maias como bárbaros e tal. Às vezes tendemos a enxergar mais coisas do que realmente existe. Acontece muito em Hollywood um povo ser mostrado “pela metade” muitas vezes por próprio desconhecimento sobre o tal povo.

  3. O filme, é fantástico, é uma aula de história viva, claro que em alguns aspectos, a totalidade não é mais possível.

  4. É um excelente filme para se discutir História. A discussão pode permear vários elementos.

  5. ´Só não entendi em qual parte do filme é notado um fator religioso,e se existe mesmo um fator religioso.

  6. Talvez na cena de sacrifício, Ivan. Muita gente pode achar que aquela foi uma maneira de dar um caráter pejorativo à religião maia. Mas eu não entendo desta maneira.

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