Rodrigo Santiago

Tiros em Columbine

In Documentário on 6, agosto, 2003 at 23:57

“Tiros em Columbine” levou a estatueta do Oscar de melhor documentário, o que não significa que o filme seja ruim, ao contrário, o filme é muito bom, toca em uma ferida que poucos se proporiam a tocar. Muitos acusam Michael Moore de ser manipulador, demagógico e adjetivos afim, mas eu me pergunto até que ponto um documentário deve ser imparcial, se é que isso é possível. Qualquer documentário, especialmente os que pretendem a defender e comprovar —ou encontrar — uma hipótese, vai estar arraigado da visão do autor e seus pontos de vista, então, não é pecado se Michael Moore manipula suas imagens. Ele está cumprindo o seu papel de documentarista. Manipular é uma coisa, distorcer é outra. Não vejo como ele distorce fatos ou falas, eles apenas as manipula, colocando em um contexto em que adquire menos ou mais ênfase.

O filme traz uma mistura de humor e cenas trágicas, fazendo surgir ali um certo humor-negro em certas passagens. O povo americano parece estar afetado por um sonambulismo, e Michael Moore, neste filme, é aquela pessoa que tenta acordar este sonâmbulo, com um belo tapa na cara, trazendo de volta estes indivíduos para a realidade. 

Moore se transforma em um personagem em seu próprio documentário, um narrador onipresente, conduzindo a trama do documentário “descaradamente”, por assim dizer. Sem ele se mostrando desta maneira, o documentário se tornaria de outro jeito. Um motivo que vale a pena assistir é o constrangimento que Michael Moore traz aos seus entrevistados, mas somente aos que são contrários ao seu ponto de vista, ou favoráveis às armas, como Charlton Heston, presidente da NRA (Associação Nacional de Armas), e tantos outros. 

Outro ponto bem marcante é a campanha que Moore realiza contra a K-Mart sobre a venda de munições, levando dois sobreviventes do massacre de Columbine (o fio condutor do filme), que teriam cartuchos de 9mm alojados em seus corpos, na esperança de devolução de mercadoria, no fim a loja decide terminar com a venda de cartuchos de armas. 

O filme não encerra o assunto que gera: “porque a sociedade norte-americana é tão violenta?” — e seria muita presunção se o pretendesse — mas indica alguns caminhos e possíveis respostas, pois certamente não há uma única resposta, e traz alguns questionamentos interessantes. 

Uma passagem forte, com um toque pesado de humor-negro e ironia, é quando ao fundo ouvimos a música “What a wonderful world”, e imagens, vídeos e fotografias de uma série de ações que os EUA estiveram, direta ou indiretamente, envolvidos, desde a guerra do Vietnã, passando pelo golpe chileno, ao recente atentado de 11 de setembro, onde se dá o clímax, com o segundo avião se chocando contra a torre, e ao fundo Louis Armstrong canta “what a wonderful world… oh, yeah”. 

Enfim, vale muito a pena.

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