Rodrigo Santiago

11 de setembro

In Documentário on 15, julho, 2003 at 11:58

“11 de setembro” é uma compilação de 11 curtas sem título, de 11 diretores de 11 nacionalidades diferentes, sobre o atentado de 11 de setembro às torres gêmeas do World Trade Center, com 11 minutos de duração cada um, mais especificamente 11 minutos, 09 segundos e 01 frame, menção à data de 11 de setembro de 2001. 

Com total liberdade de expressão, cada um dos diretores teve a oportunidade de fazer um filme sobre seu ponto de vista sobre os atentados às torres gêmeas. Seja essa menção de forma direta (como o curta do mexicano Alejandro González Iñárritu) ou de forma indireta (a maioria deles faz isso) a uma quase omissão (não no sentido literal da palavra) como o do japonês Shohei Imamura. 

O primeiro deles, dirigo por Samira Makhmalbaf, do Irã, trata sobre uma professora tentanto explicar aos seus alunos o que foi o atentado às torres gêmeas em Nova Iorque. Enquanto explica, fala em aviões e telefones celulares, algo de desconhecimento daqueles meninos, mais preocupados com os homens que caíram no poço, se um deles morreu ou se quebrou a perna. A mensagem que o filme passa é a de que por mais “global” que tenha sido esse ataque aos EUA, não afetou a vida daquelas crianças, e daquele povoado, estando mais preocupados com seu trabalho cotidiano do que com o ataque que a princípio não lhes afeta em nada na vida. 

A seguir, o curta do francês Claude Lelouch, na minha opinião um dos melhores. Uma surda-muda mora há um ano em Nova Iorque e namora um guia de surdos. Na manhã dos atentados eles tem uma briga e seu namorado sai para trabalhar. Ela inicia a escrita de uma carta, enquanto os atentados estão ocorrendo, ela, surda, não ouve nada. Termina a carta dizendo que só um milagre pode salvar a relação, a campainha toca, é seu namorado, todo coberto de poeira. O milagre aconteceu. O interessante deste curta, foi a maneira com que Lelouch faz para entrarmos no mundo da personagem principal, deixando o filme sem sons na maior parte, só se ouve algo abafado, como se fossem as vibrações. E no momento da escrita da carta, ela ao fundo no laptop, enquanto a TV ligada, mostra-nos o que acontece no momento (as torres em chamas e caindo). 

Outro curta interessante, é do britânico Ken Loach, relacionando o 11 de setembro dos EUA com o 11 de setembro do Chile, com o ataque ao Palácio do Governo chileno e a morte do então presidente Salvador Allende, deflagrando o golpe militar no Chile. Após isso, nenhuma novidade, já que aqui no Brasil também tivemos nossa ditadura (nossa?), com torturas, mortes, etc. A parte foda do filme é quando o então presidente George W. Bush faz um discurso dizendo que os autores do atentado de 11 de setembro deviam ser caçados, etc. Podendo claramente estar se referindo aos autores do 11 de setembro chileno (eles próprios). As imagens do ataque ao Palácio chileno também impressionam. 

O curta do israelense Amos Gitai, apesar de israelense, é interessante. O filme inicia com um recém atentado com um carro bomba em Jerusalém, e uma repórter e sua sede de transmitir ao vivo sua cobertura. No mesmo instante deste atentado, está ocorrendo o atentado às torres gêmeas, e ninguém quer saber de um atentado em Jerusalém. Outro curta no sentido de “temos com o que nos preocupar aqui além de Nova Iorque”. Outro ponto interessante do curta é que é em tempo real e feito em um plano sequência. 

Idrissa Ouedraogo, de Burkina-Faso, utiliza de um certo tom de humor para tratar da desgraça humana, principalmente das doenças do terceiro mundo, ou pelo menos de seu país. Um menino sai da escola para trabalhar pois precisa comprar remédios para sua mãe que está doente. Encontra-se com seus colegas de aula, e nisso, acredita ver Osama Bin Laden, e junto com os amigos sai na busca frenética para capturar o terrorista e receber a recompensa de 25 milhões de dólares, para curar as doenças de seu país (AIDS, malária, etc.). A tentativa é fracassada (o filme não diz se o suspeito era ou não Bin Laden), mas os garotos resolvem vender a câmera de vídeo do pai de um deles, comprar os remédios da mãe do protagonista, e assim ele poderá voltar para a escola. A vida continua. 

Sean Penn faz um curta sobre a solidão. Um idoso viúvo conversa com sua esposa morta, veste-a todo dia (coloca um vestido sobre o lado dela na cama), e assim vai vivendo o dia-a-dia. Reclama da falta de luz que faz com que as flores de sua esposa murchem. No dia dos atentados, o despertador quebrado não toca, e ele continua dormindo até a primeira torre desmoronar e desbloquear a luz do sol, que tocá-lo o acorda. As flores, florescem, e ele se levanta a cantar, pega as flores e quando leva para sua esposa, ao lado da cama, se dá conta de que ela já faleceu, enfim, caiu a ficha. Sean Penn trás um ar suave para a direção, os planos bem feitos e delicados, enriquecem o curta. O filme todo pode ser visto como uma metáfora do povo estadunidense, aonde os atentados os fizeram pensar por que é que os outros os odeiam tanto. E se não fez a ficha cair nessas pessoas, pelo menos os fez pensar por uns segundos. 

O curta mais enigmático é o do japonês Shohei Imamura, onde um ex-soldado da II guerra mundial prefere viver como uma serpente à humano. O filme parece à parte dos demais, por não tratar diretamente do 11 de setembro, e sequer mencioná-lo. Um soldado japonês da II guerra volta para casa, e em repulsa ao gênero humano, vive como serpente – rasteja, come, enfim, age. No meio do filme, alguém fala “soube que jogaram uma bomba em Hiroshima”, um leve toque na ferida dos japoneses. Termina com o homem-serpente entrando na água e indo sabe-se lá pra onde, e com a inscrição: “nenhuma guerra é santa [ou sagrada]”. Há no filme uma grande simbologia da serpente, talvez remetendo à cultura japonesa, e assim o filme se torna enigmático a nós ocidentais, como muitos aspectos da cultura oriental. Um fim sublime(?) para um filme tratando de um tema trágico. 

Há mais quatro curtas, representando o Egito (Youssef Chahine), México (Alejandro González Iñárritu), Índia (Mira Nair) e a Bósnia-Herzegovina (Danis Tanovic). O curta de Tanovic, juntamente com o filme iraniano e o israelense, traz uma mensagem “que porra eu tenho há ver com o atentado na puta-que-o-pariu se nós aqui temos nossos problemas?”. Enfim, “11 de setembro” é um bom filme, que vale a pena ser visto e refletido. Outro indício de que o filme é bom, é o fato de ter recebido uma caralhada de críticas negativas nos EUA, ou seja, pelo menos o filme não pretende ser uma gaze no 11 de setembro. 11 de s

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