Rodrigo Santiago

Durval Discos

In Cinema Brasileiro, Maluquice on 9, julho, 2003 at 11:55

Os mais desavisados poderiam pensar que o filme “Durval Discos” é algo como um “Alta Fidelidade” brasileiro, mas está longe disso. “Durval Discos” supreende pelo clima surrealista que o filme toma a partir da metade do filme, mas não é mero acaso, pois o filme conta com toda uma analogia referente aos discos de vinil (os eternos bolachões). 

O enredo em si é simples. São Paulo, 1995: Durval é um sujeito quarentão que vive nos anos 70, mora com a mãe na loja de discos. Ao ver as dificuldades que ela enfrenta para arrumar a casa, Durval a convence a contratar uma empregada, que será descoberta como sequestradora, e que deixa a menina – fruto de seu sequestro – escondida na casa de Durval, com a desculpa de que fosse sua filha. Ao descobrir a menina, a mãe de Durval se encanta por ela, enxergando nela a figura de um neto que Durval não lhe deu, e que não tem esperanças de lhe dar. 

A analogia com os LPs se dá no momento em que Durval e a mãe descobrem que a empregada é uma sequestradora, e está morta, e de que a menina não é sua filha, mas fruto de um sequestro. A partir daí, tal qual um vinil, o filme vai para seu lado B, mais sombrio e descamba para o surrealismo. O primeiro instinto de ambos ao se depararem com a notícia, é devolver a criança para a delegacia mais próxima e resolver o mal-entendido, porém, o que parece simples se complica, a mãe de Durval, de tão encantada que ficou com a menina, inventa desculpas para fazê-la permanecer um pouco mais, tornando-se cada vez mais tenebrosa, e o filme vai se tornando mais surreal, chegando ao ponto de a velha comprar um cavalo e colocá-lo dentro de casa apenas para agradar a menina e de matar a moça que trabalha na padaria vizinha quando esta descobre tudo e ameaça ir à polícia. 

Durval assiste a tudo isto em estado de choque, aceitando à sua maneira os delírios da mãe, mostrando que não apenas a aparência o prendia ao passado, mas também sua dependência à velha e da consequente aprovação desta a tudo que Durval fosse fazer. Entre fios de telefones cortados e chaves jogadas no vaso sanitário, Durval entra em prantos, dando a sensação de que finalmente se deu conta do que estava havendo, e o choro simboliza essa queda no mundo real, pois Durval estava assistindo a tudo e sendo conivente até aí. Quando chora, chama a polícia e o final é previsível. 

Mais do que um suspense psicológico, o filme é sobre um filho querendo sair do julgo de sua mãe, e até que ponto ele é capaz de aceitar as loucuras da mãe enquanto encontra-se neste estado de dependência. No final do filme, Durval caminha estupefato pela rua, olha de um lado a outro e dá um grande e aliviado suspiro, descaradamente simbolizando a queda do fardo da dependência da mãe. 

No final, com a demolição da loja de Discos, como diz em um jornal onde li em qualquer lugar “pode-se não se saber que fim levou Durval, somente que ele se desvencilhou do passado”. O filme é um dos poucos filmes do recente cinema brasileiro a apresentar um roteiro original ao invés de ser adaptado de um livro, peça ou o que quer que seja (colaboração do Wagner). O filme vale cada real investido.

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