Rodrigo Santiago

Posts com Tag ‘Oscar’

O ano da elite e a tropa da miséria brasileira

In Cinema Brasileiro on 2, Outubro, 2007 at 21:30

Li o comentário abaixo neste post do blog da Revista de Cinema, que pergunta ao leitor se concorda com a indicação do filme “O ano em que meus pais saíram de férias” como possível candidato ao Oscar de melhor filme em lingua estrangeira:

É uma pena que a comissão tenha escolhido “O ano em que..” para representar o Brasil para a categoria de Melhor Filme Estrangeiro. Não deixa de ser um bom filme, mas “Tropa de Elite” representaria muito melhor o nosso país pois fala do Brasil de hoje.

Esse é a típica mentalidade fechada do brasileiro, achar que o passado não serve para nada e que o que passou, passou. Já era. Foi-se.

Nosso país foi palco de um governo militar ditatorial — que os militares, simpatizantes e paranóicos de plantão cismam em chamar de “revolução democrática” — que durou cerca de vinte anos. Este é o vigésimo-segundo ano desde o fim da ditadura, só há apenas dois anos que o período vivido sob a democracia superou o vivido sob a ditadura. Logo, dizer que algo que trate da ditadura não representa o “Brasil de hoje” é ser, no mínimo, leviano.

Estes vinte anos vividos sob a ditadura influenciaram fortemente o “Brasil de hoje”, tanto que a imprensa abusa do direito à liberdade de expressão, e, quando contrariada, evoca a censura do período ditatorial. Na minha opinião é oportunismo, mas um oportunismo montado em cima de uma ferida ainda não cicatrizada. Quantas famílias não foram desestruturadas diretamente devido à perseguição política? Quantas pessoas ainda sentem o reflexo daqueles dias hoje? O tema ainda está tão presente no “Brasil de hoje” que há, hoje em dia, quem receba indenizações referente aos crimes cometidos pelos agentes do regime militar. Aliás, cabe lembrar que a concessão das indenizações às vítimas do regime ditatorial é recente.

A própria situação do filme “Tropa de elite” é resultado da ditadura militar, já que o tráfico de drogas organizou-se durante os anos da ditadura. O Comando Vermelho teve sua origem dentro da penitenciária de Ilha Grande, para onde eram enviados os presos políticos, que em contato com os presos comuns, acabaram trocando experiências. Foi desta maneira que os presos comuns adquiriram conhecimentos de táticas de guerrilha e organização, usados depois para a formação de um grupo criminoso organizado e com grande alcance.

Portanto, é inegável que a ditadura militar influenciou o “Brasil de hoje”, logo, qualquer obra que trate deste período está, sim, falando do Brasil contemporâneo.

Mas… e daí se o filme não falasse do “Brasil de hoje”?

Qual será o filme brasileiro no Oscar 2008?

In Cinema Brasileiro on 25, Setembro, 2007 at 23:29

Foi publicado hoje no blog da Revista de Cinema que o filme brasileiro candidato à vaga de melhor filme estrageiro no Oscar 2008 será decidido amanhã. Entre os dezoito inscritos está “O ano em que meus pais saíram de férias”, dirigido por Cao Hamburger, o meu escolhido. Não assisti a nenhum dos outros filmes da lista, por falta, principalmente, de tempo e dinheiro. Mas digo que “O ano…” é meu escolhido por considerá-lo um dos melhores filmes brasileiros a que já assisti, e acho que tem chance de ser escolhido como um dos finalistas pela Academia pois tem muitas das características que ela gosta. Tenho quase certeza de que os jurados brasileiros escolherão um filme nos moldes daquilo que ela gosta, e nessa, mesmo não tendo assistido aos filmes da lista, sei que alguns não tem chance, como “Três irmãos de sangue“, já que não é do feitio da Academia “oscarizar” um documentário nessa categoria — nem em nenhuma outra, exceto na de melhor documentário.

Já é sabido que há um intenso lobby por trás de cada filme “em disputa” no Oscar, e que a Academia tem preferência por certos tipos de filmes, enquanto despreza outros. O Oscar é a premiação do cinema comercial de língua inglesa por excelência, não há espaço para o cinema experimental, exceto para aqueles que tenham sucesso comercial nos Estados Unidos. Os filmes premiados, além de terem grande sucesso, são todos bons ou até mesmo excelentes, muito bem feitos tecnicamente, não deixando nada a desejar como cinema. Agora, se o Oscar é uma premiação válida e yada yada yada, isso é uma outra conversa.

Sabendo do exposto no parágrafo anterior, o filme “Tropa de elite” será distribuído nos Estados Unidos pela The Weinstein Company, produtora dos irmãos Weinstein, os fundadores da Miramax, conhecidos como grandes lobbystas. “Cidade de Deus” também foi distribuído por eles nos EUA e teve quatro indicações — de melhor fotografia, edição, roteiro e direção — feito que nenhum filme brasileiro conseguiu até então. Logo, é outro importante candidato.

Para ver os filmes inscritos, os jurados e mais informações visite aqui ou aqui.

O resultado será divulgado amanhã, às 16h.

Update
O escolhido foi “O ano em que meus pais saíram de férias”.

Tiros em Columbine

In Documentário on 6, Agosto, 2003 at 23:57

“Tiros em Columbine” levou a estatueta do Oscar de melhor documentário, o que não significa que o filme seja ruim, ao contrário, o filme é muito bom, toca em uma ferida que poucos se proporiam a tocar. Muitos acusam Michael Moore de ser manipulador, demagógico e adjetivos afim, mas eu me pergunto até que ponto um documentário deve ser imparcial, se é que isso é possível. Qualquer documentário, especialmente os que pretendem a defender e comprovar —ou encontrar — uma hipótese, vai estar arraigado da visão do autor e seus pontos de vista, então, não é pecado se Michael Moore manipula suas imagens. Ele está cumprindo o seu papel de documentarista. Manipular é uma coisa, distorcer é outra. Não vejo como ele distorce fatos ou falas, eles apenas as manipula, colocando em um contexto em que adquire menos ou mais ênfase.

O filme traz uma mistura de humor e cenas trágicas, fazendo surgir ali um certo humor-negro em certas passagens. O povo americano parece estar afetado por um sonambulismo, e Michael Moore, neste filme, é aquela pessoa que tenta acordar este sonâmbulo, com um belo tapa na cara, trazendo de volta estes indivíduos para a realidade. 

Moore se transforma em um personagem em seu próprio documentário, um narrador onipresente, conduzindo a trama do documentário “descaradamente”, por assim dizer. Sem ele se mostrando desta maneira, o documentário se tornaria de outro jeito. Um motivo que vale a pena assistir é o constrangimento que Michael Moore traz aos seus entrevistados, mas somente aos que são contrários ao seu ponto de vista, ou favoráveis às armas, como Charlton Heston, presidente da NRA (Associação Nacional de Armas), e tantos outros. 

Outro ponto bem marcante é a campanha que Moore realiza contra a K-Mart sobre a venda de munições, levando dois sobreviventes do massacre de Columbine (o fio condutor do filme), que teriam cartuchos de 9mm alojados em seus corpos, na esperança de devolução de mercadoria, no fim a loja decide terminar com a venda de cartuchos de armas. 

O filme não encerra o assunto que gera: “porque a sociedade norte-americana é tão violenta?” — e seria muita presunção se o pretendesse — mas indica alguns caminhos e possíveis respostas, pois certamente não há uma única resposta, e traz alguns questionamentos interessantes. 

Uma passagem forte, com um toque pesado de humor-negro e ironia, é quando ao fundo ouvimos a música “What a wonderful world”, e imagens, vídeos e fotografias de uma série de ações que os EUA estiveram, direta ou indiretamente, envolvidos, desde a guerra do Vietnã, passando pelo golpe chileno, ao recente atentado de 11 de setembro, onde se dá o clímax, com o segundo avião se chocando contra a torre, e ao fundo Louis Armstrong canta “what a wonderful world… oh, yeah”. 

Enfim, vale muito a pena.