Rodrigo Santiago

Posts com Tag ‘Cinema europeu’

Um último beijo antes do último beijo

In Ficção on 26, Julho, 2008 at 15:02

Quando assisti ao trailer de “Um beijo a mais” (The Last Kiss), filme estrelado pelo “Scrubs” (Zach Braff), pelo irmão do Ben Affleck (Casey Affleck), Tom Wilkinson, entre outros, fiquei com a impressão de que já o tinha visto há alguns anos. Mas o filme é relativamente novo (2006 e chegando só agora no Brasil), foi então que nos créditos do trailer vi que era baseado em um filme italiano, chamado aqui “O último beijo” (L’Ultimo Bacio), de 2001.

Assisti recentemente ao filme com o “Scrubs” e, apesar de ser um bom filme, as comparações são inevitáveis. Read the rest of this entry »

“A queda”: Hitler não era um robô

In Cinema, História on 6, Junho, 2008 at 15:10

Virou lugar-comum sempre que se falar em nazismo, fascismo, Hitler ou qualquer outro regime totalitário ou líder totalitário, criticar, de preferência com diversos adjetivos pejorativos, tais movimentos. E os patrulheiros de plantão estão aí para garantir que isso ocorra. É claro que não se quer que eventos como os que ocorreram na segunda guerra mundial se repitam, mas muitas vezes as críticas ao regime parecem mecânicas, e, assim sendo, desprovidas de conteúdo. Vazias. O lobby anti-Hitler desde o final da segunda guerra até hoje é tão intenso que muitas pessoas não se sentem à vontade quando vêem alguma imagem dele, ou os termos usados para adjetivá-lo são “monstro”, “desprezível” entre outros. Mas Hitler não foi muito diferente do qualquer outro líder totalitário. Nem pior, nem melhor.

Normalmente há bastante resistência, sobretudo por parte dos vencedores, às tentativas de mostrar o ponto de vista dos vencidos, pois há um ditado famoso que diz que “a História é contada pelos vencedores”. Foi o que ocorreu a partir do lançamento do filme “A queda: as últimas horas de Hitler” (baseado no livro “No bunker de Hitler, os últimos dias do Terceiro Reich“), em 2004. Houve uma série de críticas ao filme, ou por “humanizar” a figura do ditador, ou por tentar mostrar o regime nazista como vítima, ou, ainda, por tentar passar a idéia de um “nazismo light”. [mais informações].

Não vi nada disso no filme.

Ele humaniza, sim, o ditador. Mas não do jeito como normalmente se caracteriza uma pessoa como humana: dotada de sentimentos nobres. Mas como um ser humano que pode ser vil, empedernido, cruél e dócil ao mesmo tempo, o filme humaniza o ditador neste sentido. Mas como o cinema — ou aquelas que fazem cinema — tende a ser maniqueísta — o que é bom vira excessivamente bom, e o mal excessivamente mal — é natural que surjam críticas quando um “vilão” da vida real é dotado não apenas de sentimentos rancorosos. O filme mostra um Hitler que tem a capacidade de amar e de ser dócil com os outros, mas, ao mesmo tempo, mostra os delírios do líder nos momentos finais, como também mostra sua crueldade e seu rancor para com os judeus. Ou seja, o filme humaniza sim a figura do ditador, mas jamais absolvendo-o ou tentando criar empatia com ele.

Se o regime nazista chegou nesse ponto foi com o apoio da população. Os judeus estavam crescendo economicamente na Alemanha, o que levou muitos acreditarem que a causa da economia estar em níveis tão ruins fossem os judeus. Isto, aliado com os ressentimentos da primeira guerra mundial, criou um ambiente promissor ao desenvolvimento de um regime totalitário e nacionalista, com apoio popular. Os estrangeiros e etnias consideradas inferiores foram perseguidas: judeus, ciganos, eslavos, comunistas, etc.

O filme dá umas pinceladas sobre isto, mostrando uma característica presente nos movimentos fascistas, nos quais os líderes são tidos como infalíveis, criando, assim, uma idolatria do povo para com eles. Uma característica típica do absolutismo. Um dos pontos mais importantes do filme para mim é quando mostra a demagogia do líder, que, por orgulho e narcisismo, prefere a morte à rendição, e assim abandona — suicidando — aqueles que o apoiaram, que o levaram ao poder e legitimaram suas ações, diante da derrota iminente.

Ou seja, o filme só sugere um “nazismo light” para aquelas que o vêem com olhos tortos e de maneira superficial, sem perceber suas nuances. Pena que o ator Bruno Ganz, interpréte do füher no filme, não levou prêmio algum por sua atuação, pois ele esteve magnífico.

Ficha técnica

O fantasma da liberdade

In Maluquice on 9, Agosto, 2007 at 20:59

Remexendo meus trabalhos de faculdade me deparei com um texto em que fiz uma pequena análise do filme “O fantasma da liberdade”, dirigido por Luis Buñuel e escrito por ele e por Jean-Claude Carrière. Foi seu penúltimo filme, lançado em 1974. O filme é estruturado em forma de pequenas esquetes que, embora desconexas umas das outras, juntas formam uma narrativa coerente e não convencional, já que o filme não possui uma trama. Todas as esquetes estão intimamente ligadas através da mensagem que Buñuel passa. Ele mostra como estamos à mercê das convenções sociais e dos valores da sociedade na qual vivemos. Mais do que fazer uma crítica a estas convenções pré-estabelecidas da sociedade, Buñuel critica ferozmente os propagadores destes valores, a burguesia e a Igreja Católica, e, ainda, a cegueira com a qual nos apegamos a estas convenções. Este filme nos permite enxergar estas convenções sociais como algo historicamente construído e não como algo transcendental.

Uma das técnicas utilizada por Buñuel para demonstrar seu ponto de vista é a inversão de valores. O maior exemplo é a insólita cena do “jantar”, na qual uma família tipicamente burguesa — a burguesia era, como já mencionei, um dos principais alvos das críticas de Buñuel — senta-se ao redor da mesa, mas ao invés de sentarem-se em cadeiras, sentam-se em vasos sanitários e fazem ali mesmo, coletivamente, suas necessidades fisiológicas. O contraponto da cena se dá quando um dos presentes pede licença e vai ao “banheiro”, pega um prato de comida e, recluso, se alimenta. A sociedade convencionou o que é privado e o que é público, o que é certo e o que é errado. Nada contra, desde que não tentem me convencer de que as convenções são transcendentais e imutáveis. Da mesma forma como foram construídas, podem muito bem ser dissolvidas. O pior de tudo é que muita gente não se toca disso e passa a vida inteira sem percebê-las. Quando questionado limita-se a responder “sempre foi assim”.

A maioria das pessoas está condicionada a não refletir sobre as coisas que se passam em seu cotidiano, e dessa maneira vamos cada vez mais rápido em direção ao barranco. Não gosto muito de fazer análises dos significados dos títulos, mas o título desse filme de Buñuel é claro: o “fantasma da liberdade” é a crença cega nestes valores pré-estabelecidos, pois nos limitam e nos condicionam a uma vida que não sabemos se é a melhor para nós. A liberdade só é plena — ou só há liberdade —, segundo Buñuel, quando nos desprendemos destes valores e deveres que aprisionam a alma humana.

Assista aqui ao trailer do filme e aqui a uma cena.

Tudo sobre minha mãe

In Ficção on 12, Abril, 2007 at 20:49

Assisti recentement a “Tudo sobre minha mãe”, do Almodóvar. Resumidamente, o que tenho a dizer é: nossa, que filme desgraçado de bom! É o primeiro filme dele a que assisto, já tive oportunidade de ver este e outros filmes dele, mas nestas oportunidade não me senti preparado para assistir. É um tipo de filme que gosto: sobre pessoas reais, com suas fraquezes e seus pontos fortes. Todos são humanos. Almodóvar traz os “freaks” do underground para o “mundo real”, e os mostra como seres humanos, com dúvidas e problemas como qualquer pessoa dita normal. E ao mesmo tempo que faz isso, mostra como pessoas “normais” têm atitudes consideradas anormais pelos outros. Não utiliza rótulos ou estereótipos para definir a personalidade das personagens, uma das principais falhas de muitos cineastas. É um filme bonito, em que tudo funciona. A fotografia é fantástica, a direção de arte intensa (cores fortes, vibrantes), muito bem dirigido e um elenco que dispensa comentários. Foi uma excelente porta de entrada na filmografia de Almodóvar.

[youtube]xfErk52u1PM[/youtube]

Um belo momento de introspecção da personagem principal. A trilha sonora é fundamental.