Remexendo meus trabalhos de faculdade me deparei com um texto em que fiz uma pequena análise do filme “O fantasma da liberdade”, dirigido por Luis Buñuel e escrito por ele e por Jean-Claude Carrière. Foi seu penúltimo filme, lançado em 1974. O filme é estruturado em forma de pequenas esquetes que, embora desconexas umas das outras, juntas formam uma narrativa coerente e não convencional, já que o filme não possui uma trama. Todas as esquetes estão intimamente ligadas através da mensagem que Buñuel passa. Ele mostra como estamos à mercê das convenções sociais e dos valores da sociedade na qual vivemos. Mais do que fazer uma crítica a estas convenções pré-estabelecidas da sociedade, Buñuel critica ferozmente os propagadores destes valores, a burguesia e a Igreja Católica, e, ainda, a cegueira com a qual nos apegamos a estas convenções. Este filme nos permite enxergar estas convenções sociais como algo historicamente construído e não como algo transcendental.
Uma das técnicas utilizada por Buñuel para demonstrar seu ponto de vista é a inversão de valores. O maior exemplo é a insólita cena do “jantar”, na qual uma família tipicamente burguesa — a burguesia era, como já mencionei, um dos principais alvos das críticas de Buñuel — senta-se ao redor da mesa, mas ao invés de sentarem-se em cadeiras, sentam-se em vasos sanitários e fazem ali mesmo, coletivamente, suas necessidades fisiológicas. O contraponto da cena se dá quando um dos presentes pede licença e vai ao “banheiro”, pega um prato de comida e, recluso, se alimenta. A sociedade convencionou o que é privado e o que é público, o que é certo e o que é errado. Nada contra, desde que não tentem me convencer de que as convenções são transcendentais e imutáveis. Da mesma forma como foram construídas, podem muito bem ser dissolvidas. O pior de tudo é que muita gente não se toca disso e passa a vida inteira sem percebê-las. Quando questionado limita-se a responder “sempre foi assim”.
A maioria das pessoas está condicionada a não refletir sobre as coisas que se passam em seu cotidiano, e dessa maneira vamos cada vez mais rápido em direção ao barranco. Não gosto muito de fazer análises dos significados dos títulos, mas o título desse filme de Buñuel é claro: o “fantasma da liberdade” é a crença cega nestes valores pré-estabelecidos, pois nos limitam e nos condicionam a uma vida que não sabemos se é a melhor para nós. A liberdade só é plena — ou só há liberdade —, segundo Buñuel, quando nos desprendemos destes valores e deveres que aprisionam a alma humana.
Vi o filme há muitos anos, e depois de ler este post, tenho vontade de o rever.
Acho que não existe em dvd, mas vamos ver.
Olá José. Que bom o post despertou o desejo de rever este filme. Também gostaria de revê-lo e prestar mais atenção do que da primeira vez. Aqui no Brasil sei que existe em DVD, talvez deva ter sido lançado por aí também.